domingo, 17 de dezembro de 2017


NA MIÑA MENTE bailan as
brizas atadas às ráíces das
árbores que saben chorar.
Diluvia no mundo enteiro
e todo é máxico, coma os
soños no corazón do neno
irado. Prendo a lámpada.
O canario respira contra a luz,
à marxe do pensamento e do
soño.


  Valle, Luís. Para que eu beba. Cangas do Morrazo: Edicións Barbantesa, 2017, p 36.
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sábado, 16 de dezembro de 2017


Crónica publicada hoje  na Plataforma "Escritores.online". Ver aqui  https://escritores.online/textuario/cegos-sao-os-outros-victor-oliveira-mateus/  
Foto: Leitura no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca em 2017/10/25.
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                                        Cegos são os outros
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     Ao sair do café, de manhã, logo após o pequeno-almoço, deparei-me com duas mulheres, saídas nem eu sei de onde, que me barravam o caminho. Uma delas, vestida de negro, estendeu-me um livro de capa acastanhada. Se eu queria ouvir a verdade, perguntou-me. Eu, ainda ensonado e com pouca paciência, resolvi gracejar: Isso está mal traduzido! A mulher de negro perdeu a compostura, vociferou, saltitou à minha frente. Eu, que me tinha jurado jamais argumentar em questiúnculas ou conciliábulos deste tipo, resolvi recuar. Contudo, a mulher de negro não desarmou: falou-me do eminente fim do mundo, folheou o livro, defendeu a indiscutibilidade do escrito. Os seus olhos chispavam, o corpo aos estremeções parecia barco em vendaval tremendo. E foi então que resolvi dar um cunho mais sério à abordagem: falei-lhe das interpretações das Escolas de Alexandria e de Antioquia, das questões surgidas em torno das Epístolas de Paulo, etc. A mulher de negro foi ao rubro: Quem devia estar aqui era um ancião!, gritava ela. Um ancião é que havia de lhe responder.
     Quando me preparava para as contornar e cortar cerce a conversa, senti uma mão pousando levemente num dos meus braços. Olhei. Era a outra mulher, igualmente idosa, mas esta agora toda vestida em tons claros, uma cabeleira curta e toda ela branca a condizer. Olhei-a. Tinha uns olhos de um azul tão líquido que me fez lembrar os de meu pai já nos seus momentos de assumida loucura. Olhos parados, virados para a porta do Banco. Ó meu senhor, perguntou-me ela, então pensa que andamos neste mundo para nada? Apanhado de surpresa, estrebuchei, entrechocaram-se-me os raciocínios, desabou-me a bravata, que, ainda conseguiu dizer: Não, por acaso até não! A mulher de claro, fazendo subir a mão, tocou-me os ombros, o rosto, os óculos e sussurrou: Então já vê! Ficámos os três num silêncio breve.
     A mulher de claro, serena, obliquava com frequência a cabeça, enquanto a de escuro, com a respiração rápida dos ansiosos, invetivava tudo e mais alguma coisa, até que decidiu, por fim, confessar o milagre que lhe tinha acontecido. Resolvi acabar com a cena: Ó minha senhora, já vivi o suficiente para saber que há mais milagres do que aquilo que julgamos ver! A mulher de escuro atrapalhou-se: não percebia em que sentido eu usava o termo milagre, procurou avidamente auxílio na outra, que, silenciosa, continuava obliquando a cabeça como pêndulo bem afinado. Em desespero, a mulher de escuro jorrou em cascata: as suas duas operações ao coração, as feridas – e arregaçou ligeiramente as mangas para mas mostrar – , a tensão, os desmaios etc. Foi aqui que lhe perguntei o nome do cardiologista que a acompanhava. Mas o senhor pensa que eu com 300Euros por mês de reforma, tenho dinheiro para andar sempre em especialistas? Percebi então que a conversa adquiria novo rumo, rumo esse no qual eu não costumava ter hipótese: tirei da mochila um papel e comecei a escrever… A mulher de escuro, sem perceber o que eu estava a fazer, olhava-me fixamente. Voltei a guardar a esferográfica na mochila e entreguei-lhe o papel: A senhora vá aqui a esta Clínica, está aqui o nome de um cardiologista, eu já percebi que a senhora está mal medicada, olhe, é naquela rua lá ao fundo, vá lá, que eles fazem-lhe os exames que forem necessários. E apontei para uma rua ao longe. A mulher de escuro insistia na questão do dinheiro e eu tive de a sossegar: Escute, a Clínica é de amigos meus, está muito bem apetrechada, faça mas é o favor de lá ir, ninguém lhe irá pedir dinheiro, eu já telefono para lá. A mulher de claro voltou a pousar a mão no meu braço, levou-a de novo até ao meu ombro, manteve-a aí, com uma ligeira pressão e disse: Ah, eu sabia… afinal o senhor é um homem bom! Não consegui conter uma gargalhada: Eu? Um homem bom?! Só essa é que me faria rir agora, a senhora não imagina a quantidade de pessoas que eu lhe poderia apresentar e que lhe diriam exatamente o contrário. Ela fez descer a mão até ao meu pulso, que agarrou com firmeza e, sorrindo, já sem obliquar a cabeça, murmurou: Pois é, mas esses que diz, veem com os olhos, enquanto eu vejo com o corpo todo! E foi aqui que resolvi olhá-la com mais cuidado, olhar a sua serenidade, a sua argúcia, a sua capacidade de silêncio, olhei e conclui que aquela que de nós melhor via, afinal, era cega.
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domingo, 3 de dezembro de 2017


O meu artigo "Paisaje y interioridad en la poesía de Alfredo Pérez Alencart" foi publicado no "SalamancartvAlDía" de 2 de diciembre de 2017.
O artigo diz respeito ao livro "Ante el mar, callé/ Em frente ao mar, emudeci" (Editora Labirinto, 2017) do autor referido.
Ver aqui:  http://salamancartvaldia.es/not/166262/paisaje-interioridad-poesia-alfredo-perez-alencart/
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quinta-feira, 30 de novembro de 2017



(Torga, Miguel)

Por Buarcos passeia, sem outros luxos que não seja o seu antigo
olhar montanhoso.

Interrompe a consulta, deixa de ver lânguidos aquários,
e sai a capturar a força que o mar concentra.

E anota o memorável do abnegado ofício de ser pescador e de ser
poeta:

" Mas da mesma maneira que eles, sem que ninguém lhes peça
sardinhas, se
fazem ao mar; também eu, sem que ninguém me peça poesia, me
lanço a este mar da criação".

Alguém o viu em 43, entregue ao trabalho.

Costa a costa de uma Ibéria que é encontro e cisão,
poesia por praias e trigais;
utopias e sebastianismos precipitando-se
no fundo da esperança.

As ondas não descansam.
Nem o médico quando ausculta e grita o seu amor pela Figueira,
a sua fidelidade ante uma costa que lhe vai gritando ao ouvido:

"Rocha, és bem-vindo!"

Alguém o viu em 86, entregue ao trabalho...


   Alencart, Alfredo Pérez. Em frente do mar, emudeci/ Ante el mar, callé (edição bilingue). Fafe: Editora Labirinto, 2017, p 34 (Tradução de Eduardo Aroso).
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quarta-feira, 29 de novembro de 2017


Herdo o azul.

A minha voz escolhe a sua hospedagem e semeia na primavera
e se desoculta numa altíssima janela.

Em cada instante um sonho ou uma onda.
Em cada dia um novo baptismo. Em cada estremecimento
a abolição dos desdéns.

Inútil querer fugir daqui.

Nesta praia a luz não desaparece nem quando chegam
tempestades.
Pego na declaração das testemunhas.
Não se esquecem de nenhum raio de sol de qualquer verão.

Dizem do agosto: "Os banhistas enchem a praia,
os restaurantes repletos, o casino
para o jogo, os espectáculos dando vida nocturna..."

Exercito a paixão pelo sossego que resgata.
Exercito o sossego pela paixão que desgasta.

Entretanto, a cidade encontra-me a percorrê-la sem mapa
de cabeça erguida pelas ruas,
sentindo-a muito cá dentro para acreditar na sua existência.

E submerjo os meus olhos nela, para que não desapareça.
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  Alencart, Alfredo Pérez. Em frente do mar, emudeci/ Ante el mar, callé (edição bilingue). Fafe: Editora Labiirinto, 2017, p 14 (Tradução de Eduardo Aroso).
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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Capas da edição em português da obra em referência publicada pela "Hebel Ediciones" de Santiago do Chile. Esta tradução e o prefácio estiveram a cargo respetivamente dos poetas brasileiros Leonam Cunha e Álvaro Alves de Faria.
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       Prohibido por ley


Se me han perdido los abrazos
y partes de mi cuerpo
se han quedado dispersas por ahí
incrustadas en otras vestimentas.

Ahora busco un camino
que me conduzca al verso que no llegué a escribir,
al silencio sagrado que llené de palabras,
a un sitio bajo el cielo donde pueda encontrar
esos abrazos que perdí
y donde la perversa esperanza esté prohibida
por ley y para siempre.
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  Moro, Lilliam. Contracorriente. Diputación de Salamanca, 2017, p 54 (Prólogo: Carmen Ruiz Barrionuevo).
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domingo, 26 de novembro de 2017



          El monje copista

Tengo el vicio secreto de conversarme adentro
con un lenguaje exento de figuras retóricas.
No importa en qué momento, sola o acompañada,
con tanta perfección que nadie se da cuenta
pues me hablo con naturalidad
pero sin emitir aquello que me sé.
Incluso a veces escribo con el dedo
cualquier palabra clave sobre una piel desnuda
en medio de la noche entre frases de amor.
Es que me dan alergia
los sensatos de buena voluntad,
los prácticos consejos que siempre llegan tarde,
el aprecio y la mirada comprensiva
del que pretende que me le parezca.
Estou acostumbrada a disfrutar
del vértigo de andar sobre la cuerda floja
pero sin patetismo ni ridículas frases
o cursis conclusiones. Prefiero
vomitar mis resacas sin palabras, sin ruido.
Escribo frases invisibles que solo yo puedo leer.
Grito, pero nada se escucha.
Me voy perfeccionando en el silencio.


   Moro, Lilliam. Contracorriente. Ediciones Diputación de Salamanca, 2017, p 25 (Prólogo: Carmen Ruiz Barrionuevo).
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sábado, 25 de novembro de 2017



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Dmitri Hvorostovsky (16/10/1962-23/11/2017) morreu em Londres, vítima de cancro no cérebro, com 55 anos de idade, após dois anos e meio de luta com a doença. Para mim, que tive oportunidade de o ver no Grande Auditório da Gulbenkian, ele era o maior barítono da atualidade. Uma grande perda no mundo da música e da arte em geral.
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                                                Romance moderno


   Seis meses bastaram para que soubessem tudo um do outro: que ela se orgulhava da intrepidez que uma tatuagem (um beija-flor plagiado do catálogo do estúdio) na virilha representava, que ele gostava de videogames, que ela lia Proust, que ele cursara um bacharelado em Física, que ela era fluente em francês, que ele se tornara fã de Godard, que ela saía com uma ruiva de dezanove anos, que ele não tinha muitos amigos, que ela trabalhava como free-lancer, que ele retocava o primeiro livro, que ela desejava se casar na igreja, de véu e grinalda, que ele viveria na Europa por uns tempos, que ela era mãe de uma menina de cinco anos, que ele afrontava o psicanalista duas sessões por semana, que ela e a filha moravam num apartamento quarto e sala, que ele era ateu, que ela o convidava para um jantar, no próximo final de semana. Depois de tanta conversa, concordaram que era hora de se verem. Já não se continham: logavam dez, onze vezes por dia e os papos se estendiam por horas: planejavam o noivado. No dia anterior ao encontro, um recado: ela lera cinco páginas do romance dele e que, a despeito de um ou outro clichê, a história prometia. Havia também uns detalhes sobre o estilo, mas nada que não pudesse ser resolvido e até gostaria que trabalhassem juntos na correção. Para, pouco depois, ele cancelar o encontro e digitar uma última mensagem: vou excluir o seu perfil dos meus contatos, não me procure mais, você não está me fazendo bem. Tchau.
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 Fraga, Whisner. Lúcifer e outros subprodutos do medo. Guaratinguetá: Penalux, 2015, pp 52-53.
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sexta-feira, 24 de novembro de 2017


           La merecían


LA lluvia que ha lavado las naranjas,
las últimas naranjas perezosas,
la limpia, la que viene ya sin barro.
Y esas naranjas que la merecían
solo por esperar hasta el invierno,
como merecen todos los que esperan.


 Mesanza, Julio Martínez Mesanza. Gloria. Madrid: Ediciones Rialp, S.A., 2016, p 35.
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quinta-feira, 23 de novembro de 2017


            Safo Dieciséis


LO más hermoso de la negra tierra
no es una carga de caballería,
no es el choque frontal de dos falanges
ni el blanco surco de una nave negra.
Lo más terrible de la hermosa tierra
es amar el desdén de quien amamos.


   Mesanza, Julio Martínez. Gloria. Madrid: Ediciones Rialp, S.A., 2016, p 26.
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quarta-feira, 22 de novembro de 2017



                         Partiste. Eu gelo...


Partiste. Eu gelo os dias
a conjugar os verbos da ausência -
modos e tempos da melancolia:
e com essa certeza vou vivendo.

E se longinquamente amanheceres,
se a tua ausência se medir      por anos,
uma nova gramática terei
d'inventar pois: para vencer desânimos.

Tu partiste - regressarás talvez,
e eu     preso à solidão     mas aguardando
ouvir teus passos leves no passeio
(uma igual ilusão... de quando em quando).


 Salvado, António. De Tão Cansada a Esperança seguido de Liames. S/c.: A.23 Edições, 2017, p 98.
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                          Cantar-te


Não cesso de cantar-te: a ti que és só
uma constante ausência e um desejo
de possuir-te      sem saber que forma
virás tomar ao pé de mim - surpresa

que ficarás por me encontrares:     próvido
de quantos sonhos      quantos desesperos
vividos revividos      em segredo
numa secreta e apaixonada voz


que ciciava dentro do vazio
do meu peito febril sempre a fremir
como eras tu     em ânsia     permanente...

Cantar-te: seja apenas a miragem
de te pensar     em dádiva a meu lado -
fruto do meu precário pensamento.


  Salvado, António. De Tão Cansada a Esperança seguido de Liames. S/c.: A.23 Edições, 2017, p 18.
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terça-feira, 21 de novembro de 2017



                    De Ávila a Salamanca


Para longe vão as nuvens.
Escapam ao íman dos campanários
das duas catedrais.

De Madrigal em flor a Salamanca,
de frei Luís a frei Luís,
pela Moraña verde,
desmonta-se também o horizonte.
Fulgor no meio das searas
acamadas após a tormenta.

Para longe vão as nuvens,
vão na busca do levante
e o Tormes corre forte e contido,
e o mundo está bem feito...
Eu entro na cidade como quem entra
numa melodia
de uma manhã de sábado,
toda por estrear, toda para mim,
toda eco e silêncio que se altera
ao compasso dos meus passos.

E apesar de só, eu sei que vou contigo,
que contigo faço meus os passeios,
já que o sol que me beija
é o mesmo que agora estás bebendo,
com a janela aberta,
olhando para outra cidade, com outra estranha
alegria de estares e não estares sozinha.

A praça sussurra pelas arcadas,
os cafés chamam-me
e eu compro o jornal,
e tomo esta manhã com açúcar,
vibrando enquanto passa e se despede
a penúltima nuvem,
pressurosa a caminho do levante.


  Aganzo, Carlos. Salamanca raíz de piedra y letras, Antologia Bilingue de Poesía Iberoamericana. Salamanca/ Fafe: Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes/ Editora Labirinto, 2017, pp 51-53 (Coordinador y traducción: Victor Oliveira Mateus).
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           A iluminada colmeia


Húmido, intenso, um pouco melancólico,
regressa já dos montes negros o outono,
desce derramando-se pelas ribeiras de oiro,
até ao doce panal que é o mel das tuas pedras.
Esta cidade é como uma oração
de pedra em chamas.
(Deixai que, ao dizê-la suavemente,
adormeçam meus nervos e meus ossos.)

E lá no cimo, naquele ar tão puro,
(Oh, abismo infinito do azul!),
apenas o aroma da nossa ardente azinheira
- como reluz agora esta colmeia
da cidade antiga
ante um pesar qualquer!-
ou o da povoação, aquela que dorme na minha memória
repousando ao sol acobreado do vale
como ave em seu ninho.

Será de tijolo e pedra, e não de ramos e luz,
a casa que me cobrirá
neste tempo (fio de navalha)?
depois daqueles verdes
iluminados, secretos, de lagos e vilas alpinas,
depois de tanto mar e de tão sábia
leitura da luz
( aquela que me deu quanto sei e sou),
na pobreza e febre deste sereno piso,
na suave doçura destas pedras,
desfar-se-á tudo quanto é princípio e fim
da minha vida, a paisagem de minha alma?


  Colinas, Antonio. Salamanca raíz de piedra y letras, Antologia Bilingue de Poesia Iberoamericana. Salamanca/ Fafe: Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes/ Editora Labirinto, 2017, p 37 ( Coordinardor y traducción: Victor Oliveira Mateus).
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segunda-feira, 20 de novembro de 2017



              Um Arco em Salamanca


Encostada a um dos arcos que protegem esta Plaza Mayor
           /que dela são parte essencial/
observo como pouco a pouco as luzes vão esmorecendo
em silêncio

Esse silêncio que sobre mim se abate com o frio da noite
e transforma
           este lugar que de dia foi colmeia
num silêncio doce que aumenta à medida
que a luz artificial desaparece
e dá lugar a uma Lua que se afirma
           delicada e terna
como virginal unha a despontar

Horas atrás      sob o sol
as quadradas pedras da Plaza Mayor 
            sussurravam como afinado coro

Na esquálida luz que vai escorrendo pelo vazio
deito um olhar à minha pele de mestiça americana
e recordo
o amanhecer

A estância ressoava com palavras
             /roçaram a pele encrespada do Atlântico/
voo de pássaros enormes
sussurros
premonições
que suavemente embateram na praia da Península
Uma orgia de palavras

Deixo a Plaza Mayor
                    deslizo
por uma rua ainda mais escura
levanto os olhos e mordo as estrelas
devoro-as com paixão
e caminho sorvendo os delicados sucos da Lua

Olho para trás e ali se mantém esperando
                     fiel
                     poderoso
com a força que lhe deram os séculos
o arco da Plaza aquele ao pé do qual plantei
o meu amor por Salamanca


 Rodas, Ana Maria. Salamanca Raíz de piedra y letras, Antologia Bilingue de Poesía Iberoamreciana. Salamanca/ Fafe: Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes/ Editora Labirinto, 2017, pp 33-35 (Coordinador y Traducción: Victor Oliveira Mateus)
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sábado, 18 de novembro de 2017



Cualquier momento queda atrapado
entre las garras de algún abrazo estremecido,
nadie quiere ser culpable, sólo el destino
es el ceniciento de todas las sospechas.

... Se tejen las horas bajo la desnuda
sombra de los pinos, y se cubre el paisaje
con un aire de páginas desnudas.

El amenazador viento llegará hasta donde Dios
quiere que llegue.

Las eternas mareas del desierto se fundirán
con la algarabía de un nuevo amanecer,
y traspasará las entrañas de la tierra
que estarán tamizadas de nieve almacenada.

En el ir y venir alguien baila,
el inalcanzable ritmo de la alegría.

Hay un paréntesis entrecortado de silencio
en este vaivén increíble.

Es lento el viaje
donde el adiós se filtra hasta la suave
caricia de unos labios.
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  Sagüillo, Araceli. Desde entonces.. Valladolid: editorial Azul, 2014, p 105.
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No habito en una isla de arena blanca,
ni mi voz retumba prodigio del cielo y el mar.
Habito esta tierra de amor y barro,
donde el hastío se guarda entre aerosoles y promesas.

Habito este tiempo confuso y triste
a lo largo de algún jardín oscuro.
Me tranquiliza la torre de la iglesia
envuelta desde siempre en el misterio.

Llueve apuro la dulce caricia del agua.
Descalza, enredada en los charcos, adivino
alguna voz familiar pronunciando mi nombre,
dentro del sonido eterno admito lo imposible.

Cruza la sonrisa de un pájaro
en la mansedumbre de los charcos,
se clava el cálido gorjeo
sobre el regazo gris de algún misterio.
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  Sagüillo, Araceli.. Desde entonces. Valladolid: editorial Azul, 2014, p 83.
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sexta-feira, 17 de novembro de 2017



                          Edital


Ninguém 
espere o aviso
que vem
co'a madrugada:

O mensageiro
que era preciso
morreu na estrada
sem dizer nada.

Aprontem
o luto. O riso?
Foi ontem,
de madrugada.

Agora não é preciso
nenhum mensageiro
em nenhuma estrada.
Chorem. Mais nada.


  Jesus, Eduíno de. Os Silos do Silêncio, Poesia (1948 - 2004). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, p 334 (Prefácio de António Manuel Couto Viana; Posfácio de Onésimo Teotónio Almeida).
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terça-feira, 14 de novembro de 2017


           Retrato


Tenho uma pedra na voz,
uma flor no olhar; e seguro
com as mãos um pássaro de plumas verdes.
Aqui tens o retrato que me pedes.
         (E desculpa lá a pedra na voz:
         O coração está puro!)

No entanto, bem vês,
sou um escravo
da minha voz: Sigo
com os olhos o voo dos meus dedos,
          mas acabo
          sempre (ai de mim!) na dureza do que digo.


   Jesus, Eduíno de. Os Silos do Silêncio, Poesia (1948-2004). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, p 154 ( Prefácio de António Manuel Couto Viana; Posfácio de Onésimo Teotónio Almeida).
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segunda-feira, 13 de novembro de 2017


Sozinho e sempre

esperarei a Primavera
o reflorir dos ramos
o canto dos pássaros

sozinho e sempre

e com os dedos fincados
desesperadamente
nas cinzas

sozinho e sempre

esperarei a Primavera
o reflorir dos ramos
o canto dos pássaros


    Jesus, Eduíno de. Os Silos do Silêncio, Poesia (1948-2004). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, p 70 ( Prefácio de António Manuel Couto Viana; Posfácio de Onésimo Teotónio Almeida).
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domingo, 12 de novembro de 2017



É madrugada, hoje.

Corres a persiana, despedes o sol.

Pouso os olhos na areia,
escrevo-te um poema de amor.

Deixa-me morrer junto ao teu ombro,
onde a cabeça se encosta
na eternidade que começa.


    Reis-Sá, Jorge. Quase Outros Poemas. S/c.: A Casa dos Ceifeiros, 2017, 59.
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 A vida inteira esperei por ti.

 Mesmo que ainda não se tenha passado
 a vida inteira.


   Reis-Sá, Jorge. Quase Outros Poemas. S/c.: A Casa dos Ceifeiros, 2017, p 33.
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sábado, 11 de novembro de 2017



SEI DISSO, O POEMA É INÚTIL, APESAR DE ESCREVER
POESIA. Mas nem por isso me sinto substancialmente
melhor. Casado, pai de três filhos, netos exemplares, faço
tudo com o esmero do funcionário de estado. Director de
repartição. Não sou, note-se, um funcionário cansado.
Tenho músculos prontos para em cada manhã levantar
os netos, essas crianças que navegam no meu sangue e
acordam em sonhos distantes do mundo real em que me
encontro. Ponho na minha cara o sorriso mais feliz que
consigo. Sei que a minha mulher não é a amazona que
já foi e desejei lá muito atrás. Era uma puta formidável,
hoje é uma mulher doméstica, domesticada, uma san-
ta maternal, de olhar barroco, terno, adormecido - oh
puta de vida esta! Tenho músculos prontos para a guer-
ra, mas querem-me lento, ensonado, empregado, ma-
tando o tempo antes que ele me mate. Sou exemplar: no
futuro irão visitar-me numa qualquer cela de zoológico
para verem como despachava, carimbava, organizava a
minha vida anónima e vazia. Sou um animal enjaulado.
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  Cortez, António Carlos. Corvos Cobras Chacais. Lisboa: Editora Gato-Bravo, 2017, p 57.
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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

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TENS PENSADO MUITO NISTO TUDO: nos ecos
que uma pedra produz ao embater no superfície marinha
da recordação. Os seus desenhos circulares definem
molduras, frases que foram tuas um dia. Alguma vez
esse nevoeiro iria surpreender-te: terás de perfurar
o orvalho frio do último dos círculos de sangue des-
sa flor venenosa onde os olhos são crateras: não vi-
res a cara à luta. Torna-te mestre dos teus fantasmas.


  Cortez, António Carlos. Corvos Cobras Chacais. Lisboa: Editora Gato-Bravo, 2017, p 39.
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quinta-feira, 9 de novembro de 2017


Lançamento do livro Noivos do Mar, Nº 13 da coleção contramaré da Editora Labirinto. Na foto: Henrique Levy (autor), Victor Oliveira Mateus (apresentador da obra) e Miguel Real (autor do Prefácio).


                   Nu


nu
junto ao portão da quinta
pés calçados no barro
as pernas cedros a tocar ciprestes
aguardam a glória dos lábios
de Caliope

os ombros
armas raras de sóis celestes
em encontros siderais
ouvem junto ao claro portão
o suspirar das rendas brancas do mar

nu
os teus olhos sacrificam
o tempo
saciando nos muros o orvalho
no mergulhar derradeiro da tarde

nu
és vida
a descansar bosques
na acesa tormenta
que os meus olhos invade

nu
sustentas a luz na memória
confusa da alma atenta
aos gestos das tuas mãos
afagos que sei esperar

o olhar molhado das nuvens ao passar
proclama o anseio de ser homem
cânticos de corpo em sede trocam sementes

nu
junto ao portão da quinta
crescem dores abrandam sonhos

se puderes
em lento voar nu
avança!


   Levy, Henrique. Noivos do Mar. Fafe: Editora Labirinto, 2017, pp 21-22 (Prefácio: Miguel Real. Posfácio: Inez Andrade Paes).
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terça-feira, 7 de novembro de 2017


  Enquanto os media daqui se mantiveram no mais absoluto silêncio quanto ao que se passou numa das mais prestigiadas Universidades da Europa, os jornais de Castela-Leão ( "Salamanca al Dia", "El Norte de Castilla", "Diario La Razón"...) continuam ainda a falar desses acontecimentos.,
ver aqui:  http://salamancartvaldia.es/not/163937/oliveira-mateus-esta-antologia-gestada-desde-portugal-ofrenda/
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Na foto, da esquerda para a direita: Alfredo Pérez Alencart, Doña Pilar Fernandez Labrador e Victor Oliveira Mateus.
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sexta-feira, 3 de novembro de 2017



                             Segredo


de súbito sem receios nem angústias
as tuas mãos sulcam as teclas de um piano
reclinado no prazer
em silêncio
oiço a saudade da memória
nas notas sonoras e vibrantes

escuta amor
na orla das praias d'águas a luzir
o murmúrio raro das ondas
a desenhar esferas mágicas
no sol amarelecido

beijo o teu corpo de pássaro
na convulsão vulcânica da ilha
que se abre luminosa
incendiando de música as águas

passa suave mais um ano breve

um rapaz canta no jardim
o segredo
- são flores, senhor, são flores...
confiadas a estes prados

- erguei as mãos, senhor, são flores...

o mar desnuda na terra
as brancas azáleas
nascidas em chão quente
como os fetos a urze o tamujo
batidos pelas marés e pelo vento

- são flores, senhor, são flores...


  Levy, Henrique. Noivos do Mar. Fafe: Editora Labirinto, 2017, pp 33-34 (Prefácio de Miguel Real. Posfácio de Inez Andrade Paes).
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INFORMAÇÃO:
no próximo dia 7 deste mês apresentarei o presente livro, de raiz assumidamente açoreana, de Henrique Levy. Tentar-se-á integrar esta obra numa linha de açoreaneidade que vem de: Antero, Espínola de Mendonça, Maria Isabel da Câmara Quental, Virgílio de Oliveira, Manuel Augusto do Amaral, Cortes-Rodrigues, Madalena Ferin, Eduíno de Jesus, Daniel Gonçalves, Vitorino Nemésio e Natália Correia. Dia 7 na Livraria "Pó dos Livros"!!!
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quinta-feira, 2 de novembro de 2017




Esta sed se cuadrícula en la canícula,
danza al ritmo de las moscas que brillan sobre la mesa de la siesta.
En el fondo del recuerdo,
tengo la llave del desierto.
La mecânica de un rito se repite en el zumbido de la tarde
que se abre como un espejo en el tiempo.
Angustiosa y doméstica es la melodia de la tarde:
diseñada con pequeñas madrigueras
para anidar nuestros miedos.


 Leytón, Paura Rodríguez. Pequeñas mudanzas. Diputación de Salamanca, 2017, p 42.
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Quizá mordiste demasiadas veces la tristeza.
Te sangró la palabra.
Por el ojo de la ceguera
te manó el olvido.
Te salvaste.
Arropaste tus huesos.
Puliste tu alambique.
Con el corazón abierto,
latiste.


  Leytón, Paura Rodríguez. Pequeñas mudanzas. Diputación de Salamanca, 2017, p 28.
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quarta-feira, 1 de novembro de 2017



                 Circo de Feras, Xutos & Pontapés


Ai do verbo querer que tanto
Tem feito pelo equívoco
Da indecisão que nos remete
A saudade para o domínio da posse
E nos faz julgar incorrectos
Os passos dados até ao encontro.

Entretanto, a pausa para olhar
Em volta torna-nos
Mais silenciosos, menos dados
A processos de culpa ou de anseio,
A espera refaz sorrisos
E o abraço do primeiro encontro.


    Almeida, Rui. A Pedra Não Pode Ser Coração. S/c.: do lado esquerdo, 2017, p 34.
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terça-feira, 31 de outubro de 2017


Outro dos momentos altos do Festival: a entrega do Prémio Pilar Fernandez Labrador à poeta cubana Liliam Moro.
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Dado os jornais de Castela-Leão continuarem a noticiar o evento, podem ver também aqui:
http://salamancartvaldia.es/not/163363/salamanca-recibio-abrazo-poetico-sin-fronteras-espanol-portugues/
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Na foto, e da esquerda para a direita: o poeta brasileiro Álvaro Alves de Faria, o editor João Artur Pinto, o poeta hispano-peruano Alfredo Pérez de Alencart, Dona Pilar Fernandez Labrador e Victor Oliveira Mateus.
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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

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Momentos do XX Encontro ibero-americano de Poesia de Salamanca (2017).
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O poeta chileno Sergio Macias e Victor Oliveira Mateus foram distinguidos, no passado dia 26 de outubro de 2017, com a condição de Huésped Distinguido , condição essa atribuída pelo Alcaide Presidente da cidade de Salamanca. A cerimónia decorreu aquando da receção dos poetas presentes no XX Festival ibero-americano, tendo o poeta chileno sido representado pelo poeta Pio Serrano .
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sábado, 21 de outubro de 2017



Apresentação do livro Viagem à Demência dos Pássaros de Alberto Pereira


Creio justificar-se, como preâmbulo a esta Apresentação, um poema de uma das grandes poetas que escreveu em português na segunda metade do século XX: Dora Ferreira da Silva.


                                                O PÁSSARO

                                      Tênue
                                      toca a terra dura
e ascende.
No céu expande o canto
ferindo as cordas do infinito.
Nas folhas acorda um timbre
delicado.
Mas conhece a ferocidade.
Na fome se precipita
destroçando com o bico
vermes
que a terra expulsa
sem piedade.

Sua morada é o canto
mais do que ninhos
ou a voracidade.
E sobe para um dia cair
sem ressentimento.



Este poema de Menina seu mundo (1976), depois reeditado em Poesia Reunida. Rio de Janeiro: Topbooks 1999, pp 121-122, e que precede em quase duas décadas o mais importante ciclo poemático de Dora dedicado a aves, o Garças, publicado em Poemas da estrangeira (1995), ilustra os três nós temáticos do presente livro de Alberto Pereira: a viagem, os pássaros e o demencial. Vemos, portanto, e numa primeira abordagem, que o presente livro recusa uma linearidade discursiva centrada no prontamente dado aos sentidos, nas vivências ritualizadas do quotidiano e nas inquietações específicas de um mundo urbano ensimesmando-se numa auto-imagem grandiosa. À opção, mais ou menos circunstancial, pela urbe e pelo imediatamente experienciado, Alberto Pereira contrapõe uma tessitura metafórica articulada, onde a presença dos diversos leitemotive (o tempo, a casa, os retratos, as árvores, os livros, o piano, etc.) nos fazem lembrar os grandes rasgos poemáticos dos séculos XIX e XX (Cf. Wagner in Tristan und Isolde. Paris: Aubier, 1974, p 243: o desejo, o olhar, o mar, etc.; Cf. igualmente Giovanni Testori in Três Prantos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2012).
   Viagem à Demência dos Pássaros compõe-se de três secções: Monólogos do Báltico, Cartas à Arquitectura da Geada e Crónicas do Nevoeiro, que podem ser lidas autonomamente como entidades devidamente estruturadas, mas também como etapas de um périplo cujo término surge nos quatro últimos poemas do livro, curiosamente formado por dísticos isolados e por um poema de estrutura estrófica dual também ela dística. Eis três desses poemas que assinalam o fim da viagem referida no livro de Alberto Pereira:

De árvore em árvore,
crescer nos incêndios.

           (p 66)

Quantas paisagens cruéis são precisas
para que a pele cheire ao nevoeiro perfeito?

         (p 67)

O homem,
viagem à demência dos pássaros.

       (p 69)

Percebemos, portanto, que o poeta nos conduz, ao longo do livro, por uma viagem que não é nem geográfica nem histórica, mas que se enraíza nos grandes temas, que, ao longo dos séculos, têm perseguido o humano, fazendo-nos lembrar o homo viator dos autores medievais:



Houve um tempo em que as aves
não estavam embaciadas.

As asas não tiveram
a sorte de Ulisses
e Ítaca
é a melodia do pranto.

Ficámos sós,
a matar as teclas,
com o piano pendurado nos olhos.

        (p 57)


De entre esses temas ressaltam: o amor (pp 27, 37…) e a paixão e o que neles há de desencontro (p 53…), o sentido do estar-aqui – com um cunho nitidamente melancólico e desesperançado – (pp 39, 40…), a questão da divindade (pp 35…), o relacional, sobretudo a amada e o desejo (p 43) o tempo e a sua relação com a memória (p 51…) e com o fim.
   Arthur Dreyfus numa entrevista aquando da publicação de um livro que escreveu com Dominique Fernandez (Correspondance Indiscrète, Grasset 2016) diz-nos que existem duas formas de o escritor visar o seu objeto: de um modo direto e linear, correndo o risco de degenerar num certo panfletarismo ou de um modo de desvelamento aproximativo que paulatinamente se vai apropriando desse mesmo objeto e é, para Dreyfus, por este segundo caminho assumidamente metafórico que o aumento da poeticidade de um texto se dá. Alberto Pereira segue, então, esta segunda opção estético-literária, afirmando uma poesia torrentosa a fazer lembrar Ruy Belo e António Ramos Rosa, de uma metaforização neobarroca à imagem da portentosa lírica de Natália Correia e trazendo para esta Viagem à Demência dos Pássaros todo um léxico tradicionalmente extra literário ligado ao biológico e ao fisiológico:

(…) Palavras selvagens,
sílabas nuas de cieiro,
unhas a crescer nas estrofes
e um moinho onde possa matar
a hipertensão do ego

Nenhuma candeia se acende com lepra

      (p 18)

Parece que ainda te vejo chegar.
É indecente que continues a passear-te pelo meu corpo.
A insistir em masturbar falésias.
(…)
O whisky é um sedativo para as melodias que ladram.
Vou açaimando os animais revoltos no sótão cardíaco.

     (p 42)

Vivo no fígado,
Cidade enrugada que recita solidão à cirrose.
Coincide o teu corpo
com o que Saramago decifrou dos escombros de Deus.

    (p 43)

Esta experiência de trazer para a poesia um léxico de territórios que tradicionalmente lhe são alheios e que tivera um ponto alto em Limite de Idade de Vitorino Nemésio (1972), não sendo usual na poesia portuguesa contemporânea, encontra-se já em livros como Disrupção de Jorge Melícias (2008) e Chave de Ignição de Ruy Ventura (2009) e surge recorrentemente nos livros de Hugo Milhanas Machado, e agora também em Alberto Pereira.
    Seguindo de perto esta ideia do que o que está em causa nesta poesia, não é um hedonismo individualista e burguês que, por vezes, arremessa as escritas do diferente para o monturo do que prejudica a sanidade psíquica (seja isso o que for!), a escrita de Alberto Pereira veicula os aspetos e as inquietações essenciais do homem, assim, não deixa de ser significativo que o primeiro capítulo deste livro, Monólogos do Báltico, ponha em evidência aquilo que nos povos eslavos Baltas - povos que habitavam “desde a desembocadura do Niémen até ao golfo da Finlândia: Estónia, Letónia e Lituânia  e ainda aos Prussianos das margens do Vístula” (Cf. Maria Lamas in Mitologia Geral – Vol. II. Lisboa: Editorial Estampa 1991, p 87) - era primordial: a adoração da natureza, já que a Mitologia Balta não tinha a noção de Deus nem de vida para além da morte, antes venerava os astros, a água, os animais, as pedras e nas florestas sagradas, sobretudo para os lituanos (país fortemente arborizado), não se podia “caçar ou capturar qualquer animal incluindo as aves” (in Maria Lamas op. cit. p 88). A relação que Alberto Pereira estabelece entre a sua poesia  e o solo matricial de onde ela advém é, portanto, um marco importante desta escrita – ex.:

                        Depois a boca começou a ter cadastro.
                        A pele adquiriu a claridade fosca
                        da música de Sibelius
                        e duvidei se a tua garganta
                        era a Finlândia.

                        Todo o frio confessa,
                        deixaste-me o Báltico.

                          (p 24)


Eis, e na sequência de tudo isto, a referência a Sibelius o compositor do célebre poema sinfónico Finlândia op.26, bem como de Valsa Triste, ora, e atendendo à relação entre esta poesia e aquilo que no humano é, em autenticidade e originário, não me surpreende que o Mito Cosmogónico dos ugro-finlandeses parta exatamente de uns ovos que uma ave colocara nos joelhos de uma deusa (Luonnotar/ filha da natureza), que, melancólica, se deixava estar no oceano (Cf. Maria Lamas, op. cit. p 114). Não me surpreende também, por conseguinte, que num livro como este, que fala de pássaros, jamais apareça qualquer referência a Messiaen, músico que tanto compôs sobre pássaros, mas sempre com uma dimensão religiosa e redentora. À crença de Messiaen, Alberto Pereira opõe, neste livro, a melancolia de outros compositores românticos como Sibelius: Chopin, Beethoven e Tchaikovsky, aliás, Pushkin é referido na página 29, e não podemos esquecer que Eugene Onegin , a principal ópera de Tchaikosky se baseia exatamente no romance em verso homónimo de Pushkin. Claro que o poeta refere igualmente Mozart e Stravinsky, mas não porque lhe interesse o neoclassicismo do primeiro ou o moderno-serialismo do segundo: Viagem à demência dos pássaros nada tem a ver com esses movimentos artísticos: do primeiro convém reter tão-só a funesta existência e do segundo importa-se apenas o primeiro período, aquele em que havia sagrações da natureza e pássaros de fogo. Penso, pois, que este livro de Alberto Pereira, se no aspeto formal se insere numa escrita ousadamente metafórica e de um cheio neobarroco, ao nível do dito inscreve-se naquilo a que chamo os novos Romantismos dos séculos XX e XXI de que O Canto do Vento nos Ciprestes de Maria do Rosário Pedreira foi, talvez, a grande pedrada no charco. Encontramos neste livro de Alberto Pereira os temas do Primeiro e do Segundo Romantismo: a amada ausente, o desalento perante uma procura em vão, a geada, a penumbra, a névoa, etc., mas integrando imediatamente tudo isso nas “conquistas” do Modernismo e do Realismo Estético: o corpo, o desejo e a pulsão explicitamente sexualizada, a integração do quotidiano concreto, etc., aliás, as interconexões com o Realismo Lírico surgem à saciedade:
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A beleza rouba muitas horas à devoção.
E eu que sempre gostei de mulheres de t-shirt mal alinhada.
Calças de ganga.
Cabelos soltos para o vento fazer o que quiser.
Mulheres com vestígios de areia por baixo das unhas
Para levarmos Agosto a todos os lugares.
Mas não.
Nunca me fizeste a vontade.
Passavas séculos com os dedos estendidos.
As cores a saírem dos frascos.
E o seu cheiro a matar a areia que delirava debaixo delas.
Sentado nesta esplanada,
Sei que a ruína se aluga aos órgãos mais inconformados.


                      (pp 42-43)

Vê-se nesta situação uma luta clara entre a mulher real e a mulher idealizada, bem como a impossibilidade da primeira se adaptar à segunda, logo, o eu-poético, pela frustração sentida, cai na inevitável melancolia, eixo maior da demência neste livro. Por outro lado, a resiliência e, concomitantemente, a capacidade de regeneração do eu-lírico não têm já nada a ver com os Romantismos do século XIX, onde a exacerbação do sentir era levado geralmente ao paroxismo:




Faire une perle d’une larme,
Du poète ici-bas voilà la passion,
Voilá son bien, sa vie, et son ambition.


  Musset, Alfred de. Poésies completes. Paris: Le Livre de Poche, 2006, p 546.


Puis, quando vient l’automne brumeuse,
Il se tait… avant les temps froids.
Hélas! Qu’elle doit être heureuse
La mort de l’oiseau – dans les bois!


  Nerval, Gérard de. Les Chimères, la bohême galante, petits châteaux de Bohême. Paris: Gallimard, 2005, p 88.


  Concluo, com um excerto de um brilhante ensaio de João de Mancelos: “Ao longo dos tempos, as aves têm fascinado os escritores das mais diversas civilizações. Nalguns casos, o literatura popularizou de tal forma um pássaro que este ficou para sempre associado a um poema, lenda ou narrativa” ( in O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, p 16). E João de Mancelos passa a uma exaustiva enumeração: o rouxinol (significando a noite) e a cotovia (significando o dia) em Romeu e Julieta de Shakespeare, o Corvo de Allan Poe, o rouxinol de Keats, etc. Em Viagem à demência dos pássaros de Alberto Pereira estes alcançam uma significação complexa, porque dotados de um hibridismo significativo: os pássaros são simultaneamente eles-mesmos, mas também uma representação dos humanos enquanto viagem à demência ou, para usar a expressão da Julia Kristeva, seres marcados por As novas doenças da alma, por conseguinte, estes pássaros dementes que somos, já nada têm a ver com Shakespeare ou Keats, somos As aves ambiciosas de Aristófanes, as vingativas de Hitchcock, as assassinas e justiceiras como o Melro de Junqueiro, portanto, e parafraseando os versos de Alberto Pereira, o homem de hoje não é mais do que uma viagem à demência, um voo sempre retomado à volta do mesmo, uma viagem sem estaca nem poiso, como o daqueles pássaros que jamais alcançarão a paz de um qualquer acolhimento.


                                   VICTOR OLIVEIRA MATEUS


Biblioteca- Museu República e Resistência em Lisboa, 21 de out. 2017.
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Publicado na Revista (online) Caliban, 22 de out. 2017.







sexta-feira, 20 de outubro de 2017


No dia 27 de outubro, pelas 20.00H, estarei no Salão de Actos do BBVA c/ Duque de la Victoria, 12 - Valladolid a ler poemas (em português e em espanhol) dos meus livros: "Pelo Deserto as Minhas Mãos" (Editora Coisas de Ler), "Regresso" (Editora Labirinto) e da "Antologia Clepsydra" (Editora Coisas de Ler".
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quinta-feira, 19 de outubro de 2017



                Ruas de nébula


A Ilha dos Sonhos não existe,
diz a louca pitonisa,
inútil mapa em minhas mãos,
meus olhos sem saídas.

O véu lunar recolhe o tempo,
meu olhar distante e perdido.
Exília, o lugar que não há,
receptáculo de meus passos.
Ergo o rosto, vejo galáxias,
vagar, tempo e espaços.

Nasci em algum lugar,
afoguei-me entre represas.
Ilha encoberta,
fui arrastado pelos rios.

Meu rosto,
trilha de ravinas,
procura-se em vão nas águas adormecidas,
abraçadas a astros soberanos.

Estive em Arminda. Cá estou.
Incólume em Pompeia,
homem feito cinzas.
O Vesúvio, nada além de nostalgia.
Passos ressoam em ruas de nébula,
tudo apenas ruínas.

Fui visto em Andrômeda,
perdi-me no deserto,
adormeci em campanários.
Meus olhos não viram corpos nem almas
na explosão dos calendários.

Os dedos tocam a terra,
abrindo caminhos.
Minha cidade me espera
para ser povoada.
Sou apenas uma lenda,
ao nascer de uma coleção de nadas.


   Marino, Alexandre. Exília. São Paulo: Dobra Editorial, 2013, pp 54-55.
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017



                Náufragos

Náufrago em si mesmo, o homem
lança mensagens em garrafas.

Mas o mar só devolve o silêncio
à solidão de seu corpo.

Sem um porto onde se salvar
toma de outra garrafa
e nela constrói um navio.

Só lhe falta, agora, o destino.


  Marino, Alexandre. Exília. São Paulo: Dobra Editorial, 2013, p 45.
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domingo, 15 de outubro de 2017

Pré-publicação: com a concordância do autor o texto que se segue será incluído num livro meu de traduções que sairá ainda este ano.
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              Cadernos do Deserto

                    Fragmentos

I

Chegámos ao lugar onde o asfalto
se cravava na pele
                            aleonada
                                          do deserto,

como um aguilhão.


Se uma estrada que não vês
não é uma estrada,

os instantes que não recordas
terão sido a tua vida?

II

Imagina a palma de uma mão
que não tivesse linhas,

isso é o deserto:

a beleza
daquilo que nos falta.

IV

Ao ver o escorpião, compreendi:

não há duas obscuridades
que doam o mesmo.


    Rodríguez, Josep M. . Sangre seca. Madrid: Hipérion, 2017, pp 44-47 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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