domingo, 21 de agosto de 2016


          "  L'enfant  " (1)


Les Turcs ont passé lá. Tout est ruine et deuil.
Chio, l'ile des vins, n'est plus qu'un sombre écueil,
    Chio, qu'ombrageaient les charmilles,
Chio, qui dans les flots reflétait ses grands bois,
Ses coteaux, ses palais, et le soir quelquefois
    Un choeur dansant de jeunes filles.

Tout est désert. Mais non; seul près des murs noircis,
Un enfant aux yeux bleus, un enfant grec, assis,
    Courbait sa tête humiliée;
Il avait por asile, il avait pour appui
Une blanche subépine, une fleur, comme lui
    Dans le grand ravage oubliée.

Ah! pauvre enfant, pieds nus sur les rocs anguleux!
Hélas! pour essuyer les pleurs de tes yeux bleus
    Comme le ciel et comme l'onde,
Pour que dans leur azur, de larmes orageux,
Passe le vif éclair de la joie et des jeux,
    Pour relever ta tête blonde,

Que veux-tu? Bel enfant, que te faut-il donner
Pour rattacher gaiment et gaiment ramener
   En boucles sur ta blamche épaule
Ces cheveux, qui du fer n'ont pas subi l'affront,
Et qui pleurent épars autour de ton beau front,
    Comme les feuilles sur le saule?

Qui pourrait dissiper tes chagrins nébuleux?
Est-ce d'avoir ce lys, bleu comme tes yeux bleus,
   Qui d'Iran borde le puits sombre?
Ou le fruit du tuba (2), de cet arbre si grand,
Qu'un cheval au galop met, toujours en courant,
  Cent ans à sortir de son ombre?

Veux-tu, por me sourire, un bel oiseau des bois,
Qui chante avec un chant plus doux que le hautbois,
    Plus éclatant que les cymbales?
Que veux tu? fleur, beau, fruit, ou l'oiseau merveilleux?
- Ami, dit l'enfant grec, dit l'enfant aux yeux bleus,
    Je veux de la poudre et des balles.


(1) Um dos poemas mais divulgados do livro "Les Orientales" (1829) e que fala da guerra de independência da Grécia relativamente ao império turco.  Nesta guerra rapazes jovens lutavam ao lado das forças independentistas.

(2) Árvore mítica pertencente ao paraíso muçulmano, simboliza a felicidade e a abundância.


  Hugo, Victor. Oeuvres poétiques, Anthologie. Paris: Le Livre de Poche, 2002, pp 55-56.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2016


   
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                  "  UMA VOZ SOLITÁRIA "

  
                                ) 1 (

Solidão.
          Couraça.
                     Sou um teu sobrevivente.

O outro que restava
morreu lá longe
quando viu os pássaros acasalarem.

Solidão.
          Amarra.
                    Sou o teu salvo-conduto.

Vou, transido de medo,
por essas veredas
onde apenas parece ouvir-se
como imploram, no vento,
as brisas que insistem em amar-se.


                         )  2  (

Acompanho-me.
Faço-me outras gentes.
Vou-me repartindo.

Dou-me medo neste só
e procuro-me, sabendo
que não há forma
de que as mesas, por exemplo,
me sejam companhia.

Nem que o amor o seja.
Só este corpo inaudito em que sou
como carne
a que este sangue acrescenta o que sou
como vinho.


                        )  3  (

Passo a noite no cais
junto ao cão de três cabeças.
Caminhamos firmes
rumo à estação seguinte
onde ainda permanecem as folhas
do último outono.


                       )  4 (

Vale mais estar só do que muito só.
Demora mais o só a sair de sua ausência
do que uma agulha a atravessar os poros de uma palha.


                       ) 5 (

Nos dias de hoje até o céu
anda com uma solidão de tal modo azul
que se dispersa.


                        ) 6 (

Aqui me reconheço: sou como barro
que quis ser vasilha e acabou testemunho
de um ser em mim feito postigo
nesta portinhola a que me amarro

Aqui sou outra coisa que tanto temo.
Sou uma solidão que grita desenfreada,
que vibra como o mar enquanto te apequenas
em plena tempestade de um céu ameaçador.

Vejo-me como vala de uma esquina
enredada ao longo da espinha
para iludir a emoção.

E no meio deste frio que é a vida
através da minha sombra ainda indefinida
cresce-me este outro eu no coração.


                         ) 7 (

Tudo: as malas. Os corpos.
As tapeçarias. A areia. Os risos.
O condor. O jaguar. Os vasos com sede.
A sede dos castanheiros.
A macieira fustigada pelo inverno.
Tudo: até o mosquito que nos perturba
o sono, tudo se vai, definitivamente,
para a teia sem saída da solidão.


                        )  8  (

Que o solitário abra o mar de Moisés
e se afogue
nesse acontecimento.
Que nem sequer tenha tempo de olhar para trás
porque aí se converteria em estátua de sal
e estaria mais só do que nunca.
Mesmo que por pombas estivesse acompanhado.


                       ) 9 (

Virá a morte
        e a solidão far-se-á
        o menos profundo dos mistérios.



  Troncoso, Xavier Oquendo. Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio, Nº 1, Setembro, 2016, pp     . Fafe: Editora Labirinto, 2016 ( Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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segunda-feira, 15 de agosto de 2016



  Final do " Canto XXXI-Sobre o retrato duma bela dama esculpido no seu túmulo "


(...)

Por natural virtude,
uma sábia harmonia
inspira ao sonhador
desejos infinitos e sublimes visões;
por isso em mar oculto, deleitoso,
erra o espírito humano,
semelhante a ousado
nadador que por gosto sulca o Oceano:
mas se um acorde dissonante
fere o ouvido, em nada
aquele paraíso se transforma num instante.

Natureza humana, como podes,
tu, que és tão baixa e frágil,
que és sombra e pó, sonhar tão alto?
E, se alguma nobreza também guardas,
como podem teus mais dignos
pensamentos e emoções tão facilmente
de tão baixas causas provir e extinguir-se?


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005, p. 237 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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sexta-feira, 12 de agosto de 2016



  Excerto do " Canto XIX - Ao Conde Carlo Pepoli "

(...)
Aquele a quem o culto das vestes e cabelos
e dos gestos e dos passos e os vãos cuidados (1)
de coches e cavalos, e as concorridas
salas, e as buliçosas praças, e os jardins,
aquele a quem jogos e cenas e cobiçados bailes
ocupam a noite e o dia; esse de cujos lábios
não se aparta o sorriso; ai, mas no peito,
no íntimo do peito, grave, fixa imóvel,
como coluna adamantina, mora
tédio imortal, contra o qual nada pode
vigor da juventude, e nem doce palavra
de rosados lábios a derruba,
nem o olhar terno, trémulo,
de duas negras pupilas, o olhar querido,
das coisas mortais a mais digna do céu.
Outros, como para evitar a triste
sorte humana, a mudar terras e climas
o tempo consumindo, e por mares e montes errando,
todo o orbe percorrem, os confins
dos espaços que ao homem nos infinitos
campos de par em par a natureza abriu
peregrinando alcançam. Aí, ai, sentou-se
na alta proa o negro cuidado (2), e sob
qualquer clima, qualquer céu, em vão se invoca
a felicidade, vive e reina a tristeza.


(1) As ocupações frívolas;
(2) O tédio.


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005., pp. 147-149 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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segunda-feira, 8 de agosto de 2016



   " Canto XI - O Pássaro Solitário "


Do alto da torre antiga,
ó pássaro solitário, para o campo
voas cantando até que o dia morre;
e a harmonia erra por este vale.
(...)
Ouve-se o balir dos rebanhos, o mugir do gado;
alegres, as outras aves, à compita,
pelo céu livre fazem mil rodeios,
festejando o seu melhor tempo:
tu, pensativo, olhas de lado tudo;
nem companheiros, nem voos,
não te importa a alegria, evitas os folguedos.
Cantas, e assim passa
da tua vida e do ano a mais bela flor.

Oh, como se parece
ao teu o meu viver! Divertimento e riso,
da tenra idade doce família,
e de ti, irmão da juventude, amor,
suspiro amargo dos passados dias,
não curo, não sei porquê; ou antes, deles
como que fujo para longe;
como um eremita e estranho
ao meu lugar de nascimento,
da minha vida passo a primavera. (...)

Tu, pássaro solitário, chegado ao fim
do tempo de vida que os astros te concedem,
da tua existência
não te queixarás; que da natureza é fruto
cada desejo teu,
A mim, se da velhice
o aborrecido limiar
evitar não consigo,
quando aos outros estes olhos já não inspirarem sentimentos
e vazio se lhes torne o mundo e o futuro
mais enfadonho e negro que o presente,
que me parecerá de tal desejo?
E destes anos meus? E de mim próprio?
Oh! arrepender-me-ei, e muitas vezes,
mas inconsolável, voltar-me-ei para trás.


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005., pp. 103-105 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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domingo, 7 de agosto de 2016


   Final do "Canto VI - Bruto Menor"


(...) Para pior
caminham os tempos; e não pode confiar-se
a corruptos descendentes
a honra de egrégias mentes e a suprema
vingança dos infelizes. Que à minha volta
as penas rode o ávido escuro pássaro (1);
que a fera arremeta e a tempestade
arraste os ignotos despojos;
e o vento o nome e a minha memória acolha.


(1) o corvo.


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005, p. 71 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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quarta-feira, 3 de agosto de 2016


Na última semana do próximo mês de setembro, será apresentada em Lisboa, em local e dia a confirmar
"CINTILAÇÕES: REVISTA DE POESIA E ENSAIO", Nº1 setembro 2016.

Coordenação: Victor Oliveira Mateus
Apresentação a cargo de: Jessica Falconi


A Revista contará com as colaborações dos seguintes POETAS E ENSAÍSTAS:
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Adalberto Alves, Albano Martins, Alberto Pereira, Alberto Riogrande, Alexandre Bonafim, Alice Fergo, Amadeu Baptista, Amadeu Liberto Fraga, Ana Mafalda Leite, Ana Maria Puga, André Alves, António de Almeida Mattos, António Cândido Franco, Antonio Carlos Secchin, António Ferra, António José Queiroz, António Salvado, Artur Coimbra, Carlos Afonso, Casimiro de Brito. Cecília Barreira, César A. Miranda de Freitas, Cláudia Lucas Chéu, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Ernesto Rodrigues, Eugénia Bettencourt, Iacyr Anderson Freitas, Inez Andrade Paes, Isabel Cristina Pires, Jeannette L. Clariond (1), Jessica Falconi, João Rasteiro, Jorge Velhote, José Jorge Letria, José Viale Moutinho, Julia Barella (1), Júlio Ferreira Leite, Luís Aguiar, Luís Fernando Chueca Field (1), Luís Filipe Pereira, Luís Filipe Sarmento, Luís Quintais, Maria Augusta Silva, Maria José Quintela, Maria Quintans, Marisa Martínez Pérsico (1), Mbate Pedro, Montserrat Villar González (2), Orlando Barros, Paulo Inocêncio Moreira, Paulo Pego, Renata Pallottini, Renato Epifânio, Ricardo Gil Soeiro, Ricardo Marques, Rui Rocha, Ruy Espinheira Filho, Samuel Pimenta, Sérgio Laignelet (1), Vicente Alves do Ó, Xavier Oquendo Troncoso (1), Xosé Lois Garcia (3).
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(1) Poetas e Poetisas de: México, Espanha, Peru, Argentina, Colômbia e Equador traduzidos para português por Victor Oliveira Mateus.
(2) Poetisa espanhola traduzida para o português por Jorge Fragoso.
(3) Poeta espanhol que virá em Língua galega.
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A equipa que esteve envolvida neste projeto agradece a todos os colaboradores a generosidade demonstrada. No meu caso específico, agradeço também a todos os poetas estrangeiros que me entregaram os seus poemas e confiaram no meu trabalho de tradução. Espero não os ter desiludido, já que os originais são autênticas obras de arte. Obrigado a todos!
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domingo, 17 de julho de 2016



    "  Nombre u Objeto "

El amor pide amor, lo pide sin cesar - Lo pide
siempre aunque se represente a sí mismo
en desencuentros. El amor es dar
lo que no se tiene a quien ni siquiera es. Mirad
al John Donne enamorado que podía
completar una naranja eterna. El creyó en el día
infinito y no asistió al Seminario
VIII de Lacan. Él inventó con sabiduría aquello
mismo que trinaba el mirlo
en su jarddín: que no existe muerte personal que
valga - que siempre se muere
en otro, al que la culpa del fracaso se transfiere.
Se trataria pues de escoger bien
la Cosa que inmóvil pase por ello y no se
aleje de nosotros. Una de dos: Nombre u Objeto.


  Veyrat, Miguel. El Hacha de Plata. Sevilla: Ediciones de La Isla de Siltolá, 2016, 99.
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sexta-feira, 15 de julho de 2016



  " Un Buen Negocio "


Prevalece pues poeta lo que creaste.
El precio será tu muerte
física o civil - pues el odio
por lo que suena entre los silbos
del bosque al desvelar lo que debía
ocultarse, nunca logra que pase
inadvertido aquello que tú
amaste - bruma de lo que no podría
ser dicho en lengua alguna
y cantan tus lenguas desde el ramaje.


  Veyrat, Miguel. El Hacha de Plata. Sevilla: Ediciones de La Isla de Siltolá, 2016, p. 85.
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quinta-feira, 14 de julho de 2016

(Nota - A minha relação com o meu livro Regresso (2010), por razões que aqui não importam, foi sempre algo atribulada. A partir de certa altura, deixei mesmo de regressar a ele. Por outro lado, exceptuando o poema "Num café da Via Monginevro" que viria a surgir em vários blogues e Antologias, todos os outros textos do livro acabariam ignorados. Foi, pois, com alguma surpresa que acabei de encontrar, no último livro do poeta espanhol Miguel Veyrat ( El Hacha de Plata, La Isla de Siltolá, 2016) três versos de Regresso - vs. 1-3, Ainda no café - como epígrafe de uma das secções ( Pangea Pintada de Azul ) do seu livro aqui referido. Este gesto, de alguém que eu considero um Mestre - no sentido clássico do termo! - levou-me a reler esse meu livro por mim colocado à margem e levou-me também a - reconsiderando a qualidade dos poemas - fazer as pazes com a Voz Poética que há muito tempo estava encerrada, e sem remissão, em todas aquelas páginas.)
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     "  Notas Doce  "


Lo que se pudre es el tiempo
no el hombre proclamado
a imagen y semejanza
del gran arquitecto del grito.
El hombre, el que se
renueva siempre en marcas
- hermas, notas doce
que resuenan en su pecho al
compás de las estrellas:
a contar desde el verbo Domi
nante - el quinto nacido
desde la voz primera
en enviar su tono al caos solar.
El otro lado ya no existe,
ya no hay más allá: memorias
incompletas prosiguen
su latido tras la mística
droga llamada incertidumbre.
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     Veyrat, Miguel. El Hacha de Plata. Sevilla: Ediciones de La Isla de Siltolá, 2016, p. 45.
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quarta-feira, 13 de julho de 2016


 Poema 7 do ciclo " Quanto tempo dura uma geração? "


Não há nada maior ou mais antigo que o Universo
dantes acreditava-se que o Universo era uma coisa estática
só depois é que se percebeu que está em expansão
isto faz com que galáxias que já estiveram aglomeradas
fiquem de dia para dia mais distantes umas das outras
uma espécie de Pangeia cósmica
é claro que este efeito de expansão e distanciamento aplica-se
às pessoas
ao seu universo.


   Chéu, Cláudia Lucas. Pornographia. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p. 100 ( Prefácio de Miguel Real).
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terça-feira, 12 de julho de 2016




Não consigo escrever-lhe, sequer uma linha, sem ser
cilindrada.
Morro a cada sílaba.


   Chéu, Cláudia Lucas. Pornographia. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p. 59 (Prefácio de Miguel Real).
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     "  PLANO A  "


Estou nua ao abrir-te a porta, entra
e arrasta-me até à parede,
lambe-me a boca, és um cão, e
abocanha-me os mamilos, erectos,
depois, apalpa-me a cona com a mão toda
e com os dedos, afasta-me os grandes lábios,
até ao clítoris, com intenção,
e esfrega-o, hábil, nessa tarefa de fornicar mulheres,
encurralando-as
com o teu corpo, dá-me com toda a força contra o muro,
até escorrer água da pele que não sua, nunca,
e escorregar até ao chão, onde de barriga para baixo
me enfias os dedos e me fodes os buracos todos.

As palavras acabarão por vir.


    Chéu, Cláudia Lucas. Pornographia. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p. 23 ( Prefácio de Miguel Real).
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segunda-feira, 11 de julho de 2016



                  "  No Quiero  "

No quiero una patria que me entierre
que me traiga a la boca aquello que queríamos ser.

No quiero un amor que me fatigue
que se me suba al cuello sólo por venganza.

No quiero una madre que me proteja
si no la tengo al lado cuando el tiempo se vaya.

Sin patria, ni amor, ni madre
a dónde podré volver?


  Bilbao, Leire. (Tras)lúcidas, Poesia escrita por mujeres (1980-2016). Madrid: Bartleby Editores, 2016, p. 265 ( Edición de Marta López Vilar).
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A versão primeira deste poema está em língua basca:


     " Ez Dut Nahi "

Ez dut lurperatuko nauen aberririk nahi,
izan nahi genuena ahora ekarriko didanik.

Ez dut nekatuko nauen maitasunik nahi,
lepora igoko zaidanik mendeku hartzeko ez bada.

Ez dut babestuko nauen amarik nahi,
alboan izango ez badut denbora badoanean.

Ez aberri, ez maitasun, ez amarik
ez badut, nora itzuliko naiz?


    Bilbao, Leire. Idem, p. 264.
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sexta-feira, 8 de julho de 2016


TU recuerdo,
empecinado pájaro que me despierta en la noche.
Culebra que desova sobre el azúcar y el llanto.

No hay manzanas en el sacrificio
Ni joyeros de nácar girando en la ignorancia.

Solo el regurgitar de la memoria,
el acopio de años,
tu madeja infinita,
itinerante,
alrededor del corazón.

Qué se esconde al otro lado
de esa mujer que era mi madre
y enloquecia más con cada internamiento.

Tu ojo se entreabre con la insolencia de lo insomne,
de la vigilia ciega y la esperanza.

Tu ojo, madre,
eternamente abierto
como una gran pregunta.

Tu ojo centinela iluminándome,
tus palabras formando un avispero
en mitad de la infancia.


  Acquaroni, Rosana. (Tras)lúcidas, Poesía escrita por mujeres (1980-2016). Madrid: Bartleby Editores, 2016, p. 103 (Edición de Marta López Vilar).
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quinta-feira, 7 de julho de 2016



Qué cuenta el pájaro turbado por la tempestad?
Cómo predijo el azar de oscura fuente?
No volverá, no volverá a la muda
y dolorosa sangre de su hogar.

Quién percibe húmedas alas en la noche?
De dónde proceden vientos ajenos que no le previenen?
Nada le espera, nada lo hace avanzar:
abandona plumas en el aire donde se aliena.

Mas, si su cuerpo hallarais, preservad el agua
que duerme perdida en sus ojos desarraigados.


   Rafart, Susanna. (Tras)lúcidas, Poesía escrita por mujeres (1980-2016). Madrid: Barteby Editores, 2016, p. 69 ( Edición de Marta López Vilar ).
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terça-feira, 5 de julho de 2016


Sessão de apresentação do livro "Palimpsesto" na Biblioteca da Casa do Alentejo em Lisboa, no dia 25 de junho de 2016. Na mesa, da esquerda para a direita: Pedro Lamares, Ricardo Gil Soeiro, António Luís Catarino e Victor Oliveira Mateus.


    6. Ich bin der Engel der Verzweiflung, 1979: Heiner Muller


Anjo de desespero ou não,
aqui me tens - rendido à
mesma ladainha do vazio.
E se assim me furto a umas
quantas definições inteligíveis
é porque nem eu próprio sei
o que fazer com o que
sobra dos destroços.
Se de silêncio se faz a minha fala,
este grito negro é o meu canto.
De costas voltadas para o mundo,
amordaço o sopro e reconheço,
no abismo do que virá, o desabrigo
onde inscrevo o clamor da morte.


  Soeiro, Ricardo Gil. Poema 6 do Volume "Anjos Necessários, Para uma Escrita do Desejo" in Palimpsesto. Porto, 2016, p. 152.
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segunda-feira, 4 de julho de 2016



   "  26. Nota de denúncia  "


Hoje é o silêncio quem reina:
esquece por momentos a persistência
de noites e invernos.
Davas-me por perdido,
mas fui eu quem te encontrou
assim levemente abandonada.
O que finalmente somos:
vozes meticulosamente alvoroçadas,
veneno atroz disputado pelo tempo.
Haverá amanhã, todavia:
não faças caso, amor desperdiçado,
e acredita no enredo de jamais ter sido.
Sabendo de antemão de segredos repartidos,
o que vai ser de nós, agora que desbaratámos
as difusas poupanças de uma vida?
Não te zangues:
se te digo tudo isto
é porque é mentira esta melancolia.
Haverá amanhã, é o que é:
o consolo chegará na forma de um cigarro
reluzente que não chegaremos a estrear.
Respirando a luz prostrada,
precisaria de saber mais:
se ainda me amas, por exemplo;
se nos pertencem os inícios e os atalhos,
se inventaremos, de novo, o fulgor intacto.
Enquanto espero pelos dias,
conformo-me com a redenção
de algum olhar teu - subtil, luciferino,
que já não rasgue oceanos de mistério.
Sei que ainda habitas debaixo
de braços, lábios e lençóis:
o que te denunciou?
Sílabas brilhando...
Não te zangues, meu amor:
estas minhas palavras
- somente puro regateio.


  Soeiro, Ricardo Gil. Poema 26 do Volume "Bartlebys Reunidos, Para uma Ética da Impotência" in Palimpsesto. Porto: Deriva Editores, 2016, pp 95 - 96.
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domingo, 3 de julho de 2016


   "  9. Poética do voo  "


Para onde quer que decidam
rumar os meus desejos, sempre
me acompanha este infeliz defeito
de fabrico: desejar ser, como toda
a gente, não real, mas livre e certo.
E, mesmo que quisesse, não saberia
explicar tão insensato devaneio.
Imaginem só:
um inofensivo esboço inanimado,
sucumbindo perante a desmesurada
ambição de querer voar.
Sobrar-me-ia de amarras invisíveis
e, em diáfano véu me camuflando,
ensaiaria as mais empolgantes evasões.
Em voo destemido,
porém com mil e um cuidados,
passaria a pente fino
os recantos deste teu
pobre mundo tão coitado.
Tudo com o máximo das cautelas,
para não incorrer em escusados sobressaltos.

O risco dos princípios,
do ardor,
da distância aqui ardendo.


  Soeiro, Ricardo Gil. Poema 9 do Volume "Da Vida das Marionetas, Para uma Dramaturgia do Corpo Inanimado" in Palimpsesto. Porto: Deriva Editores, 2016, p. 23.
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sábado, 2 de julho de 2016

terça-feira, 28 de junho de 2016


      "  La Soledad  "


La soledad no es estar sola,
como la libertad
no son las alas que consiguen
volar al infinito, proclamarse
sin ninguna atadura,
dueñas del viento, de la luz.

No. No es eso.

Es algo más profundo y trascendente
que está dentro de ti
y te hace sola o libre como una
naturaleza únicamente tuya
que te va construyendo poco a poco
libre, sola, sin más intervención que tu conciencia.


Gatell, Angelina. La Oscura Voz del Cisne. Madrid: Barleby Editores, 2015, p. 53.
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segunda-feira, 27 de junho de 2016



     " Invisibilidad  "


Basta mirar alrededor sólo un instante
para ver que no estoy.
                                 Quizá pasé
apenas perceptible, irresoluta,
disgregada de mí, como esa nube
rosada y gris que cruza el aire
buscando
no sabe qué y sólo encuentra
su oceánico vacío y unas alas de cera
destruidas por el fuego o la ira.

Sin embargo, mis sueños parece que aún sonríen
desde lo más profundo de mi ausencia,
en donde nadie
alcanzó a verme nunca.

Y sin embargo, estaba allí. Creedme.


   Gatell, Angelina. La Oscura Voz del Cisne. Madrid: Bartleby Editores, 2015, p. 50.
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sábado, 25 de junho de 2016


                    “Palimpsesto” de Ricardo Gil Soeiro lido por Victor Oliveira Mateus
    

     Palimpsesto, o novo livro de Ricardo Gil Soeiro, apresenta-se como uma tetralogia composta por quatro textos: Da Vida das Marionetas (2012), Bartlebys Reunidos (2013), Comércio com Fantasmas (2014), Anjos Necessários (2015: estas datações correspondem à escrita dos livros, já que os dois últimos textos são inéditos, logo, aparecem agora pela primeira vez). Estamos, pois, perante uma sequência de obras, onde apesar de cada uma delas se apresentar como um texto autónomo, não deixam, contudo, ao nível de certos temas e imagens, de remeter umas para as outras. O ponto de partida deste projeto radica na tese de que não só todo o texto, enquanto objeto, se encrusta em outros que o antecederam, mas também o sujeito da leitura é ele próprio um ser formado por camadas textuais que a memória cultural nele foi depositando. Constatamos, assim, a interconexão de três territórios fundamentais, núcleos a partir dos quais todos os temas destes livros vão emanando: a relação dialógica memória/esquecimento, a temporalidade e o texto, entendido este numa asserção dual, ou seja, o texto enquanto conjunto de signos que ordenados segundo dado código esperam na página o olhar do leitor ou o texto do mundo, de acordo com a tradição que vai dos Pitagóricos a Einstein passando por Galileu,  Durkheim e tantos outros. O texto, seja qual for a forma pela qual se apresente, acaba consentindo a decifração do anteriormente rasurado (Cf. Teses sobre uma Poética Palimpséstica, I, p. 7  ) e é nessa dialética entre o oculto que, por lampejos, consente em se ir abrindo e o que se assume como novo a inscrever, que se instaura uma tríade que transpassa todo este livro de Ricardo Gil Soeiro: o amar a partir dos textos que nos enformam, a aprendizagem do desejo e o iniludível recomeço na eterna invenção do mundo (Idem). O texto, ou os textos, essa tessitura que fazemos – e da qual somos feitos  – desmembra, nesta perspetiva do poeta, a encumeada visão maioritária no Ocidente de uma criação a partir de uma palavra originária, aqui Toda a palavra é já um início tardio. Escrever é desmantelar a quimera da origem, desmascarar a fábula do inaugural. (Cf. Teses sobre uma Poética Palimpséstica, IV, p.  8  ). Estamos, por conseguinte, ante um solo de latências, de uma infindável arte polifónica, de ecos, ante um solo de onde foram varridos de vez os caracteres definitivos, as certezas positivas, os absolutos caracterizáveis a preceito. O eu-poético, nesta tetralogia, está só, só mas de olhar interrogante e lúcido, só numa melancolia e num desalento estruturais – atitudes por vezes, poucas, entrecortadas pela ironia ou pela frontal assunção da máscara –  que ele jamais cede, pois é deles, e da incerteza que eles veiculam, que não só a recusa das massas, mas sobretudo uma sabedoria outra serenamente se instauram (Cf.  Ricardo Gil Soeiro, A Sabedoria da Incerteza, 2015, pp. 18 – 19).
     São as epígrafes luzeiros que acicatam o desejo do leitor e, ao mesmo tempo, fogachos que nos entreabrem o sentido do texto. Assim, se no início da obra, Ricardo Gil Soeiro cita um excerto de Maria Gabriela Llansol (in O Livro das Comunidades. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1999, p. 57) para que nos surja clara a visão do Palimpsesto enquanto sobreposição de camadas textuais e a relação destas com o olhar de quem sobre elas se debruça, já no final deste livro o poeta não esquece os dois outros territórios fundamentais por mim referidos acima: a relação memória/esquecimento e a temporalidade. O texto aqui citado por Ricardo Gil Soeiro, integrou-o Baudelaire nas suas Visões de Oxford, que, por sua vez, formam um capítulo de Paraísos Artificiais. Baudelaire começa por defender que o cérebro humano não passa de um palimpsesto onde as camadas de ideias, de imagens, de sentimentos se depositam umas sobre as outras e que as mais recentes jamais conseguem sepultar completamente as que as antecederam. Conclui o poeta francês: “Sim, leitor, inúmeros são os poemas de alegria ou de desgosto que se gravaram sucessivamente no palimpsesto do vosso cérebro (…). Mas à hora da morte, ou na febre, ou nas indagações do ópio, todos esses poemas podem reganhar vida e força.” (Cf. Charles Baudelaire. Paraísos Artificiais. Lisboa: Editorial Estampa, 1971, pp. 154 – 156, Tradução de José Saramago).
      Em Da Vida das Marionetas, primeiro volume desta tetralogia com título retirado do filme homónimo de Ingmar Bergman, colocam-se enfaticamente as inquietações do eu-poético, que, todavia, não serão esquecidas nos livros seguintes. O poema 12., que dá título ao volume, desvela exatamente a questão da incomunicabilidade (Cf. também poemas 19 e 20) e do desalento dela derivada (Cf. poemas 7 e 23), dito de outra forma: há no eu-poético uma incapacidade estrutural de conjugar o conteúdo da ação com o instituído ou por um desejo seu ou por uma solicitação de outrem. A consciencialização destas frustrações será um dos fundamentos da melancolia (Cf. poemas 13, 15, 24), que não é sinónimo de infelicidade: “Por vezes é assim: esqueço-me / que permaneço fantoche cativo, / eternamente condenado a cruéis / caprichos de frágil demiurgo. (…) / Vejo a minha solidão e sou feliz.” (Cf. 1/28, a partir daqui indicarei sempre esta nomenclatura, pertencendo o primeiro número ao respetivo volume da tetralogia e o segundo ao poema nela aludido). O eu-poético neste livro, por conseguinte, não é mais do que uma marioneta cismando no seu destino, nas suas falhas e incapacidades: “Melhor seria render-me às evidências: / serei para sempre vago boneco de madeira, / oscilando no volátil trapézio do destino. / Com lábios emprestados / e pele improvisada, / vê como me elevo no ar, / representando cenas decerto / usurpadas da mente de um poeta. / E, no entanto, confesso que, / por vezes, queria ser humano: / (…) / Mas as coisas são como são e, / assim, aceito, de bom grado, / o papel que me destinou o universo:” ( Cf. 1/24); vê-se neste exemplo que, sendo a melancolia e o desalento sentimentos predominantes na marioneta enunciadora de desejos e ações, isso não obsta a que em dados momentos – poucos – ela não descambe numa certa aceitação da sua natureza de bonifrate pedindo meças ao destino que lhe coube em sorte. Também urge considerar a relação desta marioneta com o titereiro e com o palco onde todas as ações se desenrolam: “O palco agora está deserto. / Ainda frescos os despojos, as cicatrizes abertas pelo medo. / Parece mais verdadeiro assim: / de esqueleto nu, à vista de ninguém. / Ainda há poucos instantes insólitas / falas faziam vibrar a tua boca movediça” (Cf. 1/23). O hiato existente entre a marioneta e a plateia acabará cimentando a incompreensão desta e a prudência daquela: “Querias saber em que pensa uma/ marioneta quando está sozinha,/ afastada das luzes da ribalta./ Acautelo ciosamente os meus/ segredos bem guardados… “ (Cf. 1/8), contudo, ao mesmo tempo, esse hiato atirará a marioneta para uma atitude ambígua relativamente ao titereiro, quer desejando as suas mãos porque vivificantes e cénicas, quer temendo-as ou desprezando-as devido a todos os processos de nadificação a que tão habituadas estão e pelo cheiro a túmulo que sempre acabam trazendo: “Por vezes, reconheço, é difícil viver assim/ à mercê dos caprichos da plateia./ À deriva num teatro às escuras,/ esquecida a um canto,/ aguardo pacientemente pelo túmulo/ que em breve serão as tuas mãos./ Parecem troçar de mim:/ mas que sabem eles do meu mundo?” (Cf. 1/11).
       Todo este primeiro volume está eivado de epígrafes ou títulos de autores, que, em dado momento da sua obra, abordaram o mundo das marionetas:  Bergman, Klee, Kleist, Borges, Kateshi Kitano…  Mundo esse onde o eu-poético decide vestir a pele de um protagonista, que mais não é do que um mero invólucro de som, luz e gestos (Cf. 1/10) , aliás, não é por acaso que o subtítulo do livro é: Para uma Dramaturgia do Corpo Inanimado, no entanto, desiluda-se quem pensa que Ricardo Gil Soeiro decidiu encerrar a sua escrita poética num cultismo hermético e autossuficiente, estamos antes perante uma tessitura de metáforas e, até mesmo, de parábolas, geralmente com funções ilustrativas, mas, por vezes também, com uma função normativa implícita, procedimentos esses que subtilmente interrogam o mundo concreto dos homens nas suas vertentes existenciais e históricas, interrelacionais e, até mesmo, Éticas e Ontológicas: “Quem obedece a quem?/ Esta é a pergunta que deixamos/ a reverberar em surdina, / como um sonho lento/ sobre o qual nada diremos. “  (Cf. 1/18) e é esse mundo concreto, marcado pelo absurdo, pelo inautêntico e pelo desumano, que estabelece, logo no início do livro,  o que irá ser o itinerário do eu-poético: “Não./ Não me tentam sereias,/ deuses ou centauros./ E até já me fartei do falso brilho/ de vampiros e fantasmas./ O que eu queria mesmo era/ transformar-me em extravagante marioneta” (Cf. 1/1). Chegados ao fim deste primeiro texto percebemos que aquele querer foi concretizado e que a sua missão chegou a bom porto.
      Em Bartleby Reunidos, volume dois desta tetralogia, parte-se do texto Bartleby o Escrivão de Herman Melville que narra a história de um advogado que decide acrescentar um funcionário aos dois outros que já detém. Este advogado, que, desde a juventude, adquiriu a profunda convicção de que o modo de vida mais fácil é o melhor (Cf. Herman Melville, Bartleby o Escrivão, 2009, p. 18) vê-se, subitamente, envolvido numa série de incidentes com o seu funcionário recém admitido, este, de início, ainda produziu uma enorme quantidade de escrita (idem, p. 31), mas logo se entrega a uma estranha indiferença perante tudo o que o cerca e a todas as perguntas ou escolhas respondia invariavelmente: “preferia não o fazer”. A partir daqui as vidas do advogado e do seu escrivão multiplicam-se numa série infindável de acontecimentos que irão desembocar no encerramento de Bartleby na Penitenciária (Cf. idem, ibidem, pp. 76-83). A própria morte de Bartleby ocorre de modo silencioso, distante e à margem do turbilhão. Não deixa de ser interessante assinalar  aqui a afinidade desta morte com o modo como, num romance de Michel Tournier ,Os Meteoros ,os gémeos dormiam: unidos e em posição fetal, há em ambos os casos não só uma estratégia de recusa da conformidade, mas também um certo desejo fusional, uma vontade de apaziguamento através da negação e da morte. A presença analítica e crítica do Não, assim como a consciencialização da Morte como dadora de sentido à efemeridade da vida ou como insofismável presença adstrita à melancolia atravessam também esta tetralogia de Ricardo Gil Soeiro (Cf. 1/10, 1/25, 2/10, 2/14, 3/5…), e na acalmação do eu-poético, que nos outros dois autores  aparece expressa por uma simbólica uterina: a terra e o sono,  joga agora nesta tetralogia um papel semelhante mas através das imagens protetoras: do casulo (Cf. 2/9, 2/11, 2/24), do ninho alugado (Cf. 3/19) e da placenta livre como esconderijo predileto (Cf. 3/24),  do retiro de sombras (Cf. 4/6).
      A figura do Bartleby de Melville seria depois retomada – e retocada – por vários outros autores, dos quais destacamos Enrique Vila-Matas com a sua obra Bartleby & Companhia, onde um narrador decide inventariar escritores e/ou personagens padecentes da síndrome de Bartleby, ou seja, todos aqueles que por um motivo ou outro renunciaram à escrita como forma de a poderem afirmar. A obra de Vila-Matas consta então de um infindável conjunto de notas de rodapé onde as razões justificativas do Não desses escritores são explicitadas. Nesse escaparate da Literatura do Não podemos encontrar uma diversidade de casos desde Rimbaud (Cf. Enrique Vila-Matas, Bartleby & Companhia, 2001, p. 24), e Hart Crane (idem, p. 47) até Juan Ramón Jiménez (idem, ibidem, pp. 135- 137). Estes livros, quer o de Vila-Matas quer o de Ricardo Gil Soeiro, e já que estamos falando de palimpsestos, podem ser entendidos como um alerta e, até mesmo, como uma tomada de posição relativamente ao estatuto e futuro  da literatura. Todavia, perscrutando de modo a relacionar o Bartlebys Reunidos com os outros livros desta tetralogia, poder-se-ão encontrar neste apreensões e reflexões bem mais abrangentes tangenciando os domínios Ético, Antropológico e Ontológico, atente-se, por exemplo, à seguinte clarificação do humano : “E é então que chegas a concluir/ que nada há a fazer, pois signos/ precários é tudo quanto somos,/ murmúrio de aguardar somente” (Cf. 2/10)… A Resistência passiva levada a cabo pelo Prefiro não o fazer terá, então, uma aplicabilidade que extravasa a questão do destino da literatura, tornando-se extensiva a muitas outras áreas disciplinares. Eis, e para concluir este subtema, mais três versos sobre a natureza humana que abonam a favor do anteriormente dito: “E, na impaciência de nos sabermos/ desistentes, digo para comigo:/ afinal, somos todos Bartleby”.
      Em Comércio com Fantasmas, terceiro volume desta tetralogia, consolidam-se alguns aspetos formais, adquirindo mesmo vários uma especificidade e uma força não detetadas nos outros livros: o modo como este e aquele leitmotiv é trabalhado aproximam Palimpsesto (ao nível formal) de algumas das grandes tetralogias da cultura ocidental: as de Shakespeare, O Anel dos Nibelungos de Richard Wagner, O Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell…; os momentos de intertextualidade são também recorrentes nesta obra, todavia, é neste terceiro volume que eles assumem, por vezes, um acinte inusitado, como, por exemplo, no modo como se distorce e se põe ao serviço próprio os dois primeiros versos do poema Quasi de Mário de Sá-Carneiro: “Um pouco mais de sombra e seria chama.” (Cf. 3/14), bem como uma das máximas de Pessoa irrompendo agora, mas de outro modo: “O leitor é um fingidor” (Cf. 3/27);  a filigranada estrutura poemática chega ao ponto de – de modo deliberado e no que parece ser uma advertência (ou provocação) ao leitor, para que não se esqueça de que estamos no território do palimpsesto - … chega ao ponto, dizia eu, de assumir um título de Barthes como título de um poema (Cf. 3/13, Fragmentos de um discurso amoroso), para logo no segundo verso desse mesmo poema esconder  um outro título, este agora de António Lobo Antunes ( A explicação dos pássaros ), mas a intertextualidade não se fica só pela alusão, pela conotação e pelo parodiar, ela entra Lógica Formal adentro: repare-se como os poemas 14 e 15 deste terceiro volume se iniciam por versos que ocultam no seu seio duas proposições universais que se contraditam entre si, são os ditos versos: “Uma carta chega sempre ao seu destino” (Cf. 3/14), “Uma carta perde-se sempre pelo caminho.” (Cf. 3/15), por fim, atente-se ao estado de espírito que Ricardo Gil Soeiro refere aquando da receção de uma carta e compare-se com aquela espécie de  êxtase de que Bachelard fala, quando, na sua A Psicanálise do Fogo, descreve o Complexo de Empédocles: “(…) o normal curso do tempo parece suspender-se: rendemo-nos a um auto-recolhimento solipsista, à agudização do eu-enquanto-abismo. O olhar torna-se parado, o mundo cessa. E depois há o cheiro… “ (Cf. 3/30).
         Este terceiro texto continua a bordejar a negatividade dos lugares (topoi) e temas visitados pelo poeta: veja-se a natureza humana e sua errância pelo aqui – “ Somos poemas clandestinos, embarcando em imaginárias travessias” (Cf. 3/ 27);  “ procuro esquecer-me que o tempo existe/ e que ele é solitária travessia a percorrer,/ sabes, é inútil o que nos separa da morte. “ (Cf. 3/19).  A partir daqui o livro abre-se em dois trilhos paralelos:  por um lado, uma miríade de poemas onde há toda uma nomenclatura intrinsecamente relacionada com a Epistolografia  trocada – ou a trocar – entre estes Espectros que vamos sendo  ( Cartas extraviadas, selos roubados, Devolvido ao remetente, Postal de viagem, etc., etc.); por outro lado, elocuções de cariz metapoético que vão surgindo concomitantemente com um cismar crónico, ora sobre o mundo exterior ora sobre o interior, quanto a este último ponto é paradigmático o poema Testamento vital  (Cf. 3/17): “ Por vezes chega de repente,/ revisitando-me em horas vazias./(…)/ Mágica e desolada./ Assim é a poesia.” Este poema, propositadamente assinalado aqui, recoloca, sobre outros fundamentos, a relação da inspiração – entendida agora como momento oportuno para, predisposição interior para – com o fazer poético, aliás, a figura da Musa surge várias vezes ao longo desta tetralogia, no entanto, ela não é já a divindade inspiradora dos Românticos, mas aquilo que tangencia as Ideias da Vocação, do Ditado e da Musa explanadas por Agamben (Cf. Giogio Agamben, Ideia da Prosa, 1999. pp. 37 – 50).
      Finalmente, o quarto volume desta tetralogia: Anjos Necessários, Para uma Escrita do Desejo, que parte de uma epígrafe de Wallace Stevens  encerra duas ideias fundamentais: a) a voz que traz em si a marca (ou o estigma) da poesia é como um anjo necessário; b) o acolhimento dessa presença tem uma dimensão salvífica. Aqui é impossível não nos lembrarmos de Lévinas, quando ele nos diz que a Exterioridade e a Separação relativas à Totalidade do Mesmo são obviamente positivas, já que Abrem no sentido do Infinito, e que esse Mesmo só é tal ante o Rosto do Outro, pois é exatamente nesse Rosto do Outro que se encontra estampada a Divindade. No entanto, Ricardo Gil Soeiro afasta-se de Lévinas, não só relativamente à questão da transcendência, mas sobretudo quanto ao estatuto de efémero, veja-se (e já que estamos falando de palimpsesto e de camadas textuais que se sobrepõem) o que o seu texto diz, após ser colocado sobre um outro de Wallace Stevens:: “Assim é a perfeição do pensamento:/ aceitar as coisas como elas são./ Por esta altura, já me deves reconhecer:/ eu sou o anjo necessário e com a minha/ guitarra azul executo improváveis melodias/(…) um poema no coração do vento/ e juntos seremos capazes de/ ressuscitar a beleza do mundo./ Na latência do devir seríamos/ apenas quilo que somos:/ afinal meros figurantes, perenes protagonistas do efémero.” (Cf. 4/1). Os anjos do poeta não se agrupam em exércitos celestes, são antes esses seus companheiros do efémero e do acidental (Cf.4/5), que, paulatinamente e sem grandes ilusões, veem executando a única vingança de que são capazes e a que se sentem com direito: “  – a arte, esse segredo nunca revelado que,/ como um enterro prematuro, pode matar.”  ( Cf. 4/5); é, por conseguinte, na latência de todos os possíveis, nesse aberto que o devir sempre acena, nesse efémero – talvez antecipadamente condenado -  que marionetas, fantasmas e negações se entrecruzam, mas é também aí que Ricardo Gil Soeiro, ininterruptamente, faz e refaz a beleza terrível de que ele nos fala no poema 7 deste volume, daí, portanto e à guisa de conclusão, o verso final de A invenção do mundo: “Quem me acompanha em tal tumulto?”  (Cf. 5/16).


Biblioteca da Casa do Alentejo - Lisboa, 2016/6/25.


Pré-publicação. Texto ao abrigo da legislação relativa aos direitos de autor.
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sexta-feira, 24 de junho de 2016


Amanhã dia 25 de junho (sábado), pelas 16:30H, na Biblioteca da Casa do Alentejo, Rua Portas de Santo Antão, 58   1150-268 Lisboa, efetuar-se-á o lançamento do livro Palimpsesto (Deriva Editores)


Autor da obra: Ricardo Gil Soeiro

Apresentação: Victor Oliveira Mateus

Leitura de poemas: Pedro Lamares
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domingo, 19 de junho de 2016


Apresentação pública do livro Pornographia de Cláudia Lucas Chéu, no Bar do Teatro "A Barraca", no dia 18/06/2016. Nas mesas, e da esquerda para a direita: Victor Oliveira Mateus, Cláudia Lucas Chéu, Miguel Real, Maria Quintans e Albano Jerónimo. Esta obra foi publicada na coleção contramaré da Editora Labirinto.
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sábado, 18 de junho de 2016

Apresentação de livro.


     Palimpsesto de Ricardo Gil Soeiro ( Deriva Editores)
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    O lançamento ocorrerá no próximo dia 25 de junho (sábado), a partir das 16:30H, na Biblioteca da Casa do Alentejo, Rua das Portas de Santo Antão, 58 -  1150 - 268 Lisboa.
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      A apresentação da obra estará a cargo de Victor Oliveira Mateus.
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quinta-feira, 9 de junho de 2016



   L'état d'Ernest est grave, mais stationnaire. Le médecin qui vient l'examiner le questionne sur les secrets de son écriture et Ernest lui répond. Lorsque Ernest dit que le silence st préfárable à la parole, le médecin s'étonne: Qu'apporte le silence, et pourquoi est-il préférable à la parole, qui fait le lien entre les hommes?
- Le silence est l'expression absolue, dit Ernest.
- Mais il reste muet", dit le médecin, heureux d'avoir trouvé les mots justes.
   Il lève la tête, observe Ernest et pense: Cet homme est si malade, et pourtant il n'est pas perdu dans le monde. Il ne prêche pas, ne fait pas semblant d'être un érudit, il travaille, et est heureux dans son travail.
   Il semble à Iréna que l'humeur d'Ernest est stable à présent et que ses pensées sont tranquilles. Il ne renonce pas à s'asseoir à son bureau. Dès qu'Iréna croit apercevoir l'ange de la Mort tapi près de la fenêtre, elle se lève et la chasse, comme on chasse un oiseau de proie.
   Ils passent des heures assis, ensemble, et se taisent la plupart du temps. Iréna est à présent plus sûre que jamais que la vie d'Ernest se poursuivra bien au-delà de ce printemps au ciel clair et à la douce chaleur qui se fondra dans l'été, et de là vers l'automme et l'hiver, pour revenir encore.
   Lorsque Ernest écrit une phrase, il aspire de toutes ses forces à lui donner la forme la plus achevée. S'il est satisfait d'un passage ou d'une page, son visage s'éclaire. Iréna connaît chaque signe de cette joie qui le rajeunit d'un coup.
   Plus que jamais importe à Ernest que son écriture soit claire, ordonnée, sans quoi que ce soit de superflu, ni d'exagéré (...).
   Mais à présent Iréna est avec lui. Sa présence est la porte vers la vie. Près d'elle, chaque mot recherché ou précieux semble gtossier. À présent il n'emploie que des mots à l'intérieur desquels on peut voir, des mots qui n'ont pas un double sens, que l'on peut poser comme une tranche de pain ou un pot de lait.


  Appelfeld, Aharon. L'amour soudain. S/c.: Éditions de l'Olivier/ Le Seuil, 2004, pp. 203 - 205.
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quarta-feira, 8 de junho de 2016


Tous ces noms, ce passé chaque jour plus profond, toutes ces gloires enfiévraient ma rêverie. Marcel complétait ainsi sa leçon du premier soir de retour à Port-Vendrtes. Mon univers se peuplait de dieux, de légions couronnées, de pirastes, arabes, d'impératrices malheureuses. Mais je ne savais pas encore comment fonctionnait le télégraphe ou le phare à miroirs. Poutant, c'était au phare peint en rouge que je venais souvent retrouver Marcel. Il y avait été retenu par son travail et je frappais sans aucune timidité à la porte de la maison du gardien. L'ingénieur y avait un lit de camp dressé dans la salle commune. Quand j'arrivais, Marcel était penché sur la table de bois blanc et couvrait un cahier de petites lignes. (...) J'appris ainsi à lire peu à peu la bonté, la prévenance, l'affection, sans le secours de la parole ou les expressions d'un visage dont les traits demeuraient immobiles. Quand Marcel avait terminé son rapport et moi mon dessert, nous sortions tous les deux et nous visitions les criques minuscules qui sont autant de plages secrètes et parfaites avant l'arrivée à Banyuls. (...) Cependant, j'átais assis au bord de la table, le visage appuyé à mes deux mains. J'avais appris du gardien de phare et de tous les gens de ce pays le contrôle de mes nerfs. Mais ce n'átait pas comme eux, la bonté, la gentillesse, que je masquais à mon tour. Sous le regard d'un enfant sage et charmé, je dérobais à mon ami, échauffé par sa lecture, ma méfiance, un léger mépris, les pires sentiments de mon coeur.


   Fraigneau, André. La grace humaine. Monaco: Editions du Rocher, s/d., pp. 86 - 89.
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segunda-feira, 6 de junho de 2016



Je pris peur soudain pour mon voisin de l'aveu trompeur de ces larmes. C'est que je commençais de penser à lui comme à moi-même. Cette nouveauté me débarrassa de mes maladresses. Il ne s'agissait plus d'échafauder quelque projet d'évasion romantique, mais de courir au plus pressé. Ce n'était pas si facile. La seule fenêtre par laquelle le soleil prolongeait son suplice direct était la dernière du couloir à l'autre bout du wagon et je ne voulais pas donner à l'aide que je venais d'imaginer l'attention d'aucun voyageur ni surtout celle, je l'espérais bien, de celui que je voulais secourir. D'ailleurs, ce dernier nous avait-il même aperçus, mon camarade et moi, depuis notre venue? Je me levai, je franchis le paquet de bavards tassés dans l'ombre, je flânai debout aux portières du couloir. Les marais, devant moi, continuaient de s'étendre; j'en avais toujours aimé la grande platitude stérile qui se couvre de phosphorescences chromatiques et puis se plombe, à la fin du jour, se gâte, enfin vit et meurt comme une perle. Mais ce soir, avec mon nouveau coeur, avec le coeur d'un autre, celui d'un fugitif rattrapé, je détestais cet écran si net qu'une silhouette humaine s'y distingue à des lieues (...) j'en abaissai le rideau bleu au chiffre de la compagnie. C'était toute la nuit que je pouvais faire. Je revins à mon compartiment les mains ballantes, inutiles, ouvertes. J´étais encore debout audessus des gendarmes et des comparses que je venais de contribuer à assombrir. Alors, le prisonnier qui n'avait pas remué depuis deux heures tourna la tête de mon côté. Je reçus son regard où il n'y avait plus de larmes (...). Sa bouche tendue se deserra. Je vis l'effort de la pomme d'Adam un peu saillante au-dessus de son col. Puis ses lèvres s'ouvrirent. Il me sourit. Je ne suis pas près d'oublier ce sourir-là. Enfin, sa parole: "Merci", dit-il.


  Fraigneau, André. La grâce humaine. Monaco: Editions du Rocher, s/d., pp. 26 - 27.
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sábado, 4 de junho de 2016



         "  XXI  "


Não te machuque a minha ausência, meu Deus,
Quando eu não mais estiver na Terra
Onde agora canto amor e heresia.
Outros hão ferir e amar
Teu coração e corpo. Tuas bifrontes
Valias, mandarim e ovelha, soberba e timidez.

Não temas.
Meus pares e outros homens
Te farão viver destas duas voragens:
Matança e amanhecer, sangue e poesia.

Chora por mim. Pela poeira que fui
Serei, e sou agora. Pelo esquecimento
Que virá de ti e dos amigos.
Pelas palavras que te deram vida
E hoje me dão morte. Punhal, cegueira

Sorri, meu Deus, por mim. De cedro
De mil abelhas tu és. Cavalo-d'água
Rondando o ego. Sorri. Te amei sonâmbula
Esdrúxula, mas te amei inteira.


  Hilst, Hilda. Poemas Malditos, Gozosos e Devotos. São Paulo: Editora Globo, 2011, p 63.
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